Januåria adormece antes da despedida do sol. à o que se ouve, ou se ouvia, entre suas veredas. O sol vai se esvaindo sem muita vontade, amarelando, desesquentando, como se quisesse ouvir os sussurros que Januåria não quer que ele ouça, ou veja pelas frestas da sua luminosidade esmaecida.
As ruelas, de calçamentos irregulares, de buracos nunca tapados, convergem todas para sua praça cor de jegue; isso mesmo, meio cinza, meio bege, onde ergue-se a igreja matriz. TrĂȘs sinos. O da esquerda, inĂștil. Pois trincado por um raio, nunca foi recuperado. O da direita, fanho, nĂŁo se usa. Resta o que divide o olhar da rua com a nave principal do templo. Toca todo dia, Ă s seis da tarde. Hora do Ăngelus. Quando seus moradores acendem as luzes para a visita passageira de Maria. Antigamente, contam, eram farĂłis de manga incandescente, nas casas dos ricos, ou lamparinas nas casas dos pobres.
Mas JanuĂĄria Ă© um refĂșgios de silĂȘncios. Onde eles se aboletam, se espremem, se hospedam. NĂŁo existe o silĂȘncio. Em JanuĂĄria, silĂȘncios hĂĄ. O Ășnico de todos os substantivos que sĂł hĂĄ no plural. No universo nĂŁo hĂĄ o silĂȘncio. HĂĄ silĂȘncios em JanuĂĄria.
Antes do sol deitar-se no aconchego da sua poente cama, como se fosse de Procusto, aquela cama da mitologia, em que o dono da hospedaria esticava as pernas do hĂłspede quando menores do que a cama, ou as serrava quando maiores. Ă assim que o sol se deita em JanuĂĄria. Tentado ouvir algum dos silĂȘncios ali escondidos.
E os hĂĄ. Na prĂłxima semana contarei o primeiro.